O Grande Truque (The Prestige)


Todo truque de mágica consiste em 3 atos. No primeiro momento, o mágico apresenta ao público um objeto aparentemente comum (uma argola, um baralho, um tecido...) e pede para que algum voluntário o examine para ter certeza de que se trata de um simples objeto, sem alterações. Esse primeiro momento é chamado de promessa.

Após desviar a atenção da platéia para outro ponto, o mágico transforma aquele objeto em algo extraordinário, fazendo-o "desaparecer" por exemplo. É o momento da virada. Todos se perguntam "como isso pode acontecer?", expressões de desconfiança surgem na platéia. O objeto parecia comum a princípio, e no fundo todos sabia que provavelmente não era. Então por que a surpresa?

Como se não bastasse, o mágico precisa do terceiro momento para fechar com louvor o seu show. A parte mais difícil: A apoteose. Não basta fazer o objeto "sumir", trazê-lo de volta é o que vai determinar o sucesso da mágica. O final é espetacular, os aplausos são ouvidos e finalmente as cortinas se fecham.

A arte do ilusionismo tem suas peculiaridades. Cada mágico tem suas habilidades, seus métodos e na verdade, o espectador não está em busca de uma resposta. Ele quer ser enganado. "O Grande Truque", filme dirigido por Christopher Nolan (A Origem), aborda essa questão desde a primeira cena, onde um garoto assiste atentamente um truque simples envolvendo um pássaro e uma gaiola.

A Londres do século XIX é o cenário dessa incrível história que tem a magia como pano de fundo. Na trama, os mágicos Robert Angier (Hugh Jackman) e Alfred Borden (Christian Bale) vivem competindo entre si desde que se conheceram, isso faz com que a amizade dos dois se transforme em uma grande rivalidade com o passar dos anos. Quando Alfred apresenta um truque revolucionário, Robert fica obcecado em descobrir como ele conseguiu realizá-lo, e isso traz consequências nada agradáveis para ambos.

O filme faz um paralelo entre a beleza do ilusionismo e a busca da "verdade" nessa prática. Robert faz exatamente o que o público "de fora" se nega a fazer, procurando explicações para o que está sendo mostrado no palco. Mas em cena, o que realmente importa não são as explosões, as cartas na manga ou os cadeados quebrados. Esses elementos só servem para esconder a densa relação entre os dois personagens, que é o verdadeiro foco da trama.

Para quem gosta de uma história original, cheia de reviravoltas, "O Grande Truque" é altamente recomendado. O roteiro bem desenvolvido somado ao bom desempenho do elenco, fazem dele um grande espetáculo de magia cinematográfica. Nolan não quis dar respostas fáceis ao espectador, ao invés disso, nos faz pensar (e muito) assim como fazem os bons ilusionistas.

VIP's


VIP's, novo trabalho do diretor Toniko Melo, reconhecido por seus trabalhos em publicidade e documentários, é um bom representante do cinema "de mercado", cujo objetivo principal é entreter o público, não mais do que isso.

Baseado no livro VIP's: Histórias reais de um mentiroso, de Mariana Caltabiano, o filme narra a trajetória de Marcelo, um jovem meio alienado que desde cedo não conseguia conviver com sua própria identidade. O jovem, um típico "filhinho da mamãe" de classe média, decide deixar para trás a sua antiga vida e passa a aplicar golpes se passando por outras pessoas. A história de Marcelo ficou conhecida após ele fingir ser Henrique Constantino, um dos herdeiros da companhia aérea GOL, durante um carnaval em Recife.

Com uma narrativa simples e linear, o filme traz a história de um típico anti herói "cara-de-pau" que não mede esforços para alçar vôos mais altos, nesse caso literalmente. O filme deixa claro que desde criança, Marcelo alimentava o desejo de pilotar aviões. A questão é que no filme, o "sonho" de Marcelo parece justificar os crimes que ele cometeu - e olha que estamos falando de tráfico de drogas, armas e estelionato. Será que essa era a única forma dele conseguir o seu tão sonhado brinquedinho?

O grande mérito da produção foi ter criado uma identificação do protagonista com o público que inevitavelmente passa a torcer por ele, mesmo se tratando de um criminoso. Wagner Moura é o grande responsável por isso. O ator deixa a sua parcela "Capitão Nascimento" de lado e assume uma personalidade instável e dramática, com toques de humor e sarcasmo. Grande vencedor do Festival do Rio de 2010, onde levou os prêmios Melhor Filme, Ator (Wagner Moura), Ator Coadjuvante (Jorge D'Elia) e Atriz Coadjuvante (Gisele Fróes), VIP's não mostra o nascimento de um novo herói nacional, mas é válido como uma obra de entretenimento.

Sem Limites (Limitless)


Quando o escritor Eddie Morra se depara com um imenso bloqueio criativo ao tentar dar início a sua nova obra, sua vida entra num imenso conflito. Prestes a ser abandonado por sua namorada e viver o resto dos seus dias em um imundo apartamento em Chinatown, Eddie parece não ter mais forças para se livrar dessa conturbada situação. O destino do rapaz é modificado quando vagando pelas ruas de Nova York encontra o seu ex-cunhado Vernon Gant, um homem envolvido com tráfico de substâncias ilícitas. Após uma rápida conversa, Gant convence Eddie a experimentar um remédio revolucionário chamado NZT, que permite ao usuário o acesso a 100% das informações contidas em seu cérebro e de quebra aumenta absurdamente sua capacidade de aprendizado.

A utilização de 10 a 20 % do cérebro pelos humanos é um dos mitos mais difundidos entre a comunidade científica em todo o mundo. Memórias, habilidades e sentidos estariam limitados a essa “fatia” de conhecimento que podemos ter acesso durante toda a vida. Aí que entra o NZT. A droga, de composição desconhecida e ainda em fase de testes, tornaria Eddie um super gênio e o ajudaria a pôr fim na sua crise criativa. Na situação que ele estava, não tinha mais nada a perder.

Eddie experimenta os benefícios de um QI de 4 dígitos durante um tempo. “Eu era cego, agora enxergo”, declara o escritor após tomar o primeiro de muitos “medicamentos” mágicos. As cores frias do início da película dão lugar a um tom avermelhado, brilhante, representação da nova vida que Eddie teria a partir daquele momento. Graças a um belo trabalho de câmera, o espectador tem a oportunidade de mergulhar na visão dele, com um zoom interminável pelas ruas de Nova York. Somos apresentados a um novo personagem, um novo Eddie. Sem limites.

O filme não se limita em mostrar os efeitos (positivos e negativos) da droga no corpo de Eddie, tampouco se apóia em fatores científicos (ninguém tenta explicar a composição do NZT, por exemplo). O drama é estruturado nas decisões, não apenas do personagem principal, e nas suas conseqüências tão destrutivas quanto à substância. Terminar um livro em quatro dias, aprender a tocar piano em três dias, se tornar fluente em vários idiomas, aprender economia, direito e toda sorte de ciência sem o mínimo esforço. Toda essa maravilha tem um preço, e Eddie descobre da pior forma que muita gente perigosa está atrás do segredo do seu sucesso.

O roteiro, baseado no livro The Dark Fields, de Alan Glynn, dá conta de unir ação, suspense e drama numa história que não se preocupa em polemizar o uso de substâncias ilegais. Somos apresentados a uma ascensão meteórica e aos seus efeitos colaterais, sem que em nenhum momento o discurso moralista tome conta do filme. Uma história para refletir até que ponto as pessoas estão dispostas a pagar o preço por uma satisfação instantânea.

Jogo de Poder (Fair Game)


Desde que as torres gêmeas, um dos símbolos mais imponentes da economia norte-americana, foram submetidas ao espantoso ataque terrorista de 11 de setembro, a rotina da população americana nunca mais foi a mesma. O evento de proporções globais e a gestão questionável do presidente Bush na época do atentado, foram assuntos de inúmeras discussões ao redor do mundo.

No cinema, volta e meia o tema está em evidência novamente, ainda que filmes de teor político estejam fadados ao fracasso de bilheteria em solo norte-americano. Exemplos não faltam. Produções como "Leões e Cordeiros", "Syriana" e "Rede de Mentiras", foram simplesmente ignoradas por trazerem a tona uma realidade política que nem todos os americanos estão dispostos a ver (ou aceitar).

Apoiando-se também na questão governamental dos EUA, "Jogo de Poder" se junta ao seleto grupo de obras corajosas o suficiente para jogar no ventilador os verdadeiros acontecimentos por trás da guerra ao terror pós 11 de setembro. Com diálogos precisos e uma abordagem sem exageros, o filme mostra a história real de um dos maiores escândalos políticos do país na visão de um casal que esteve presente nos bastidores da história.

Valerie Plame (Naomi Watts) era uma agente da CIA designada pelo governo para investigar a possível ameaça do Iraque estar produzindo uma arma nuclear. Seu marido, o diplomata Joseph Wilson (Sean Penn), foi enviado ao Níger por indicação dela, com a afirmação de que o país africano teria vendido uma enorme quantidade de material químico a Sadam Hussein.

Após verificar que a operação nunca ocorreu, Wilson envia o relatório a Casa Branca, que logo é ignorado por conta de interesses maiores. Mesmo com as informações explícitas no relatório, o presidente declara guerra ao Iraque naquele discurso que parou a nação americana em 2003. Indignado com a postura do governo, o diplomata escreve um polêmico artigo para o The New York Times afirmando que a administração do presidente George W. Bush manipulou informações sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque, de forma a justificar a invasão. Em contrapartida, o governo revela a identidade de sua esposa, colocando em risco a vida do casal.

Dirigido por Doug Liman (Indentidade Bourne), e baseado nos romances Fair Game, de Valerie Plame, e The Politics of Truth, de Joseph Wilson, o filme é uma realização necessária para manter vivo o tom de denúncia à postura antiética do governo americano ao declarar guerra ignorando o fato do oriente não ter condições de produzir armamento nuclear na época.

O filme, que se passa pouco depois dos atentados terroristas em 2001, não pode ser visto apenas como um drama pessoal de um casal em apuros. O thriler revela os "podres" de uma guerra planejada e alicerçada em mentiras e manipulações de informações. Uma pena que a maioria dos prejudicados com isso prefira se omitir, sequer dando crédito a verdade exposta nesse filme (e em tantos outros).

Esposa de Mentirinha (Just Go with it)


Mais um filme de Adam Sandler (Gente Grande) chegou aos cinemas, e para não perder o costume é uma comédia. Já disse algumas vezes aqui que aprecio o gênero, acho válidas algumas boas gargalhadas, todavia estes filmes não entram em minha lista de favoritos. É difícil alguém não ter assistido pelo menos a um filme de Sandler, pois são muitos, e para mim este é o seu melhor filme no gênero.

O filme conta a história de um cirurgião plástico, vivido por Adam, que convence sua fiel assistente (Jennifer Aniston - Marley e Eu) a fingir que é sua ex-esposa em processo de divórcio. Ele faz isso para disfarçar uma pequena mentira que contou a sua atual namorada, uma professora bem mais jovem. Após mais mentiras, os filhos da sua assistente também acabam envolvidos, e todo o grupo parte para um fim de semana no Havaí. Lá viverão diversas situações, e estas mudará a vida de todos.

Com um elenco bem especial, além de dos nomes já citados, conta com a participação de Nicole Kidman (Moulin Rouge), Nick Swardson (Eu os Declaro Marido e... Larry) e Dave Matthews (vocalista da Dave Matthews Band), como coadjuvantes na história e responsáveis também por muitas gargalhadas. Dois personagens em especial roubam por muitas vezes a cena, são os dois atores mirins, Bailee Madison como a filha mais velha de Aniston e aspirante a atriz, e Griffin Alexander o filho caçula.

O filme consegue criar vários momentos de riso, sem usar do apelo sexual, comum em muitos filmes do gênero. Realmente é uma comédia como não vejo a um bom tempo.

Doce Vingança (I Spit On Your Grave)


“O filme que vai testar todos os limites da sua coragem. Está preparado?”. Resolvi encarar o desafio proposto no cartaz de “Doce Vingança” e fui conferir o filme que prometia chocar o público com cenas recheadas de ousadia e violência extrema. Tal objetivo esbarra numa abordagem mesquinha de um tema batido, sobrando ao espectador uma colagem pouco convincente de vários elementos presentes nos filmes de terror dos últimos 30 anos.

Na história, Jennifer Hills (Sarah Butler) é uma jovem escritora, que resolveu passar uns dias numa sossegada cabana na mata na intenção de escrever seu novo livro. Na pacata cidade, a presença de Jennifer é logo notada por um grupo de homens, que resolvem lhe dar um susto. A brincadeira passa dos limites e Jennifer é submetida a atos de humilhação, incluindo violência sexual, tortura física e psicológica. Após conseguir escapar dos agressores, Jennifer concentra todo seu tempo e forças para planejar sua vingança.

A maior parte do filme mantém um ritmo lento, beirando o monótono, porém os seus momentos finais são realmente chocantes. Na primeira aparição da moça após a agressão, sua aparência remete a uma assombração que ressurgiu com sede de vingança. Jennifer, outrora uma garota doce, ingênua e tranquila, se transforma numa criatura sem escrúpulos disposta a devolver na mesma moeda tudo aquilo que sofreu nas mãos daqueles rapazes.

“Doce Vingança” é uma refilmagem do terror trash “I Spit On Your Grave” (A vingança de Jennifer) de 1978, considerado um dos mais polêmicos da sua época e que por pouco não foi banido nos EUA. Certamente, o filme de 1978 seria considerado hoje apenas mais um que explora o conceito "trauma x vingança" com requintes de crueldade que foram utilizados à exaustão na sua respectiva época.

"A Vingança de Jennifer" pode ter sido até um filme a frente do seu tempo, porém a fórmula (repetida no remake) não funciona para o público de hoje, já acostumado a consumir obras que mostram o sofrimento alheio explicitamente. As barbaridades cometidas em "Doce Vingança" só servem para medir o nível de violência “aceitável” numa obra de entretenimento como essa, com a certeza que ainda estamos muito longe do limite como o cartaz promete.

Esquadrão Classe A (The A Team)


Nos anos 80, uma divertida série de TV mostrava as aventuras de uma equipe de veteranos que, enganados pelo exército americano, foram mandados para a cadeia. Após conseguirem escapar, o mesmo time se reúne e forma o Esquadrão Classe, grupo que quase sempre era contratado para realizar um resgate ou enfrentar alguma gangue perigosa em troca de alguma recompensa.

O Coronel John Hannibal Smith, Templeton "Cara-de-Pau" Peck, o insano piloto H.M.Murdock e o "brucutu" B.A. Baracus permaneceram na TV durante quatro anos e fizeram bastante sucesso, com direito a 97 episódios nesse período. Após uma queda gradativa na audiência, a série foi retirada do ar. Com a missão de reviver essa ação explosiva dos anos 80, Liam Neesom (Busca Implacável), Bradley Cooper, Quinton Jackson e Sharlto Copley foram chamados e não decepcionaram nessa divertida adaptação da série original.

Esquadrão da Série de TV
Em "Esquadrão classe A (A-Team)", os quatro soldados veteranos de guerra unem forças novamente para uma missão especial, afim de limparem seus nomes nas Forças Armadas Americanas após serem acusados injustamente de um crime. O filme não abandona a história construída durante os anos (1983-1987) em que o seriado foi exibido na TV, tornando-se um ótimo review que respeita os personagens e situações originais da série.

Na trama, o Coronel Hannibal Smith (Liam Neeson) e seus amigos mercenários são acionados para fazer um serviço secreto para um agente do Governo americano, mas uma militar de alta patente, a Tenente Sosa (Jessica Biel), antigo caso de "Cara-de-Pau" (Bradley Cooper), os proíbe de prosseguir na missão, que envolve falsificação de dólares em Bagdá e uma provável conspiração.


Um dos pontos que chama atenção é a grande diferença de personalidade dos membros desse quarteto, apesar de todos serem soldados de elite. Liam Neeson e Bradley Cooper formam uma bela dupla em cena. Claro que não poderiam faltar os galanteios e piadinhas do "cara de pau"e os planos infalíveis do Coronel Hannibal. Isso é bem valorizado no filme, pois os estereótipos variados dão um toque de humor a uma história repleta de ação e momentos surreais - que tal uma mega explosão num porto ou um salto de um tanque com pára-quedas?

Dirigido por Joe Carnahan (A Última Cartada), Esquadrão Classe A é um bom filme de ação que não fica devendo nada aos clássicos da sua época na TV. O piloto-louco, o sensível-brutamontes (que morre de medo de avião), o coronel experiente e o garanhão cara de pau voltam com tudo para mostrar o que é ação de verdade. Um exagero divertido e bem realizado.

Bruna Surfistinha


O filme que conta a história de Raquel Pacheco é baseado no livro O doce veneno do escorpião de sua autoria. O filme biográfico da mais famosa garota de programa do país já é um sucesso de bilheteria. A película da Imagem Filmes teve a segunda melhor bilheteria de estreia do ano, perdendo somente para a animação em 3D da Disney Enrolados, com R$ 4,2 milhões.

Raquel, interpretada por Deborah Secco, é uma jovem da classe média paulistana que estudava em um tradicional colégio da capital paulista. Vivenciou na adolescência conflitos familiares e escolares comuns a muitos jovens de sua idade. Um dia, Raquel tomou uma decisão surpreendente: virar garota de programa. Com o pseudônimo de Bruna Surfistinha, viveu diversas experiências "profissionais" e ganhou destaque nacional ao contar suas aventuras sexuais e afetivas num blog.

O filme possui uma boa produção técnica. Por se tratar de uma adaptação, o diretor soube muito bem usar os recursos necessários, como exemplo, a criação da rede social NetKut, uma paródia do Orkut, para assim dar uma linguagem comum à relação entre o virtual e o real. O universo de uso do blog, realmente presente na história original, foi muito bem criado. De fato não parece algo artificial, como acontece nas novelas, por exemplo, onde muitas vezes deixa a entender que no universo online tudo faz sucesso instantaneamente.

Realmente o que deixa a desejar é a história em si. Nenhum motivo real justifica a decisão da jovem Raquel à iniciação deste ofício, o que torna a vida da personagem Bruna muito mais interessante pelas experiências sexuais do que pelo conflito da mesma com as relações familiares.

Malu de Bicicleta


Luiz Mário (Marcelo Serrado) é um empresário mulherengo da noite paulistana, que coleciona casos amorosos. Apesar disto, não consegue realmente se envolver com nenhuma das garotas que já “ficou”. Um belo dia (bem ao estilo conto de fadas), no Rio de Janeiro (é claro), Luiz é atropelado por Malu (Fernanda de Freitas) na ciclovia do Leblon. Eles logo se envolvem e iniciam um romance que parecia perfeito, que apenas é abalado devido a uma enigmática carta de amor.

Não vou questionar aqui a extrema simplicidade da história. O clichê é necessário, principalmente em histórias românticas, mas não é perdoado quando o filme não tem um bom ritmo, entrosamento entre os protagonistas ou um conflito interessante. Infelizmente, "Malu de Bicicleta" não entrega ao espectador o mínimo necessário para um envolvimento com a trama.

O primeiro ponto é a construção da personagem Malu. Bonita, ingênua e desajeitada, Malu é uma amante da vida "descolada" no Rio de Janeiro. Difícil acreditar que um empresário bem sucedido com tantas mulheres atraentes a sua disposição, largaria tudo por conta de uma garota como ela, totalmente o oposto da sua personalidade paranóica de Paulista. Amor? Se ao menos o desempenho do casal convencesse que há um intenso sentimento entre os dois, talvez. A máxima "os opostos se atraem" não funciona aqui.

Se o casal de protagonistas já não colabora para um bom funcionamento da trama, o elenco de "apoio" (cria da Globo, como sempre), deixa claro o quanto a maioria deles estão completamente deslocados em cena. Isso fica em cenas específicas como a da boate - os seguranças expulsam uma mulher do local e depois iniciam um papo "sem pé nem cabeça" sobre a força física da mesma.

O filme se perde em algumas situações constrangedoras na tentativa de divertir o público. Desde fazer Daniele Suzuki parecer uma sexy-ninfa-japa (até palavrão durante uma cena de sexo ela fala, veja você...) a trazer novamente a Marjorie Estiano com a mesma expressão de garota rebelde dos cabelos vermelhos ("Malhação", lembra?).

Adaptação do livro homônimo do autor brasileiro Marcelo Rubens Paiva, "Malu de Bicicleta" é uma leitura inocente de uma inesperada relação amorosa. A grande falha está em supervalorizar o clichê a questão do amor a primeira vista, se esquecendo das tramas paralelas que também são importantes para o destino desse relacionamento.

No filme, os diálogos beiram o vergonhoso. Texto repetitivo e sem emoção, conseqüência de uma adaptação mal feita da obra literária. E se o grande conflito da história seria a aparição de uma "misteriosa" carta de amor, logo o espectador percebe que não é bem isso e a graça de esperar o desfecho da história simplesmente acaba.

Marcelo Serrado e Fernanda de Freitas formam um par romântico perfeito para a novela das oito. O cenário provavelmente seria escolhido por Manoel Carlos e a protagonista se chamaria Helena. Se a proposta do filme era ser divertido e sem apelações (coisa que hoje não se vê nem em novelas), acabamos por contemplar uma história que poderia ter muito potencial, mas é tão "abafada" que se torna fraco ao invés de leve. Eufemismo, a gente vê por aqui.

O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (Le fabuleux destin d'Amélie Poulain)


Para muitas pessoas, Paris é um verdadeiro sonho.Uma cidade famosa por seus monumentos, museus, belas praças e ruas charmosas, onde tudo em volta exala arte, beleza e encantos. O cenário perfeito para uma fábula como "O Fabuloso destino de Amelie Poulain", uma bela aventura de uma jovem francesa em busca de alguma mudança radical em sua vida.

Amelie (Audrey Tautou) é uma garota tímida que possui um acentuado gosto pelos pequenos prazeres da vida: enfiar a mão num saco de grãos, arremessar pedras no Canal San Martin ou quebrar a crosta de um crème brulée (sobremesa francesa). A jovem vivia perdida em seus pensamentos, criando uma espécie de mundo particular num pequeno apartamento em Paris, até que um acontecimento inesperado muda o rumo da sua vida.

Na noite de 30 de agosto de 1997, data do acidente fatal que levou a princesa Diana à morte, Amelie encontra uma caixa com diversos objetos infantis escondida em seu apartamento. Provavelmente, o objeto era de um garoto que viveu naquele local há alguns anos. Resta a Amelie iniciar a sua jornada em busca do dono da “caixinha de tesouros”. Mal sabe Amelie as surpresas que o destino lhe reserva.

A história é realmente simples, mas o ótimo roteiro fruto das mentes de Jean-Pierre Jeunet e Guillaume Laurant esbanja dinâmica, beleza e otimisto. Além disso, o trabalho primoroso de direção e fotografia e as atuações consistentes fazem de Amelie Poulain uma das mais apreciadas obras do cinema francês. Para isso, Jean-Pierre teve a preocupação de acompanhar todo o processo de produção, desde a revisão dos roteiros ao momento das filmagens, até que a sua ideia original ganhasse vida. E quanta vida!


O visual é o que mais impresiona na película. Um trabalho primoroso de Bruno Delbonnel (diretor de fotografia). Para que o clima fantasioso da história fosse reforçado, foram utilizadas muitas cores berrantes equilibradas com tons de azul até mesmo nas cenas escuras. Apesar de todo o processo de coloração das imagens ter sido trabalho digitalmente, a fotografia do filme teve uma influência direta de pinturas artesanais, inclusive do artista brasileiro Machado, que utilizava tons de vermelho e verde predominantemente em suas obras.

Sobram carisma e simpatia em Audrey Tautou, atriz que ganhou destaque após interpretar Amelie. A jovem com seu jeito introspectivo e cativante foi fundamental para o filme ganhar a empatia de mais de 17 milhões de espectadores no mundo inteiro. Personagens secundários como o vizinho de Amelie (conhecido como "Homem de Vidro", devido a uma doença nos ossos) foram igualmente importantes para que o filme trouxesse uma mensagem positiva de amor, esperança e amizade.

Indicado aos prêmios César (França), B.A.F.T.A (Inglaterra) e Oscar (EUA) de melhor fotografia e vencedor do European Film Award na mesma categoria, Amelie Poulain é uma brilhante produção onde a beleza e fragilidade dos personagens são harmoniosamente incluídas num cenário fantástico. Jean-Pierre Jeunet transportou para o cinema toda a sua paixão pela cidade francesa, apresentando ao mundo algumas das figuras mais adoráveis que o cinema já contemplou.

O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada)


O mundo corporativo nunca foi tão sofisticado. Para muitas pessoas, isso não quer dizer muita coisa, já que os leitores de Vogue e freqüentadores de semanas de moda mundo afora são em sua maioria jornalistas e profissionais envolvidos na produção das peças.

O Diabo veste Prada mostra justamente a força e influência que os editores de moda possuem nesse contexto. Antes que qualquer "modelito" adentre uma passarela ou estampe alguma vitrine pelo mundo, figuras como Miranda Priestly dão o seu parecer decisivo para a aprovação (ou não) das coleções.

O filme conta a história de Andrea Sachs (Anne Hathaway), uma jovem que conseguiu um emprego na Runaway Magazine, a mais importante revista de moda de Nova York. Ela passa a trabalhar como assistente de Miranda Priestly (Meryl Streep), principal executiva da revista. Apesar da chance que muitos sonhariam em conseguir, logo Andrea nota que trabalhar com Miranda não é tão simples assim.

Seguindo o sonho de milhares de garotas ao redor do mundo, Andrea "cai de para quedas" num turbilhão de marcas e modelos desenvolvidos por estilistas numa guerra de egos interminável. A garota precisa se adaptar a esse meio, já que é uma jornalista recém-formada sem nenhuma experiência com moda. Mas, até que ponto essa mudança vale a pena?


Num clima de conto de fadas as avessas, "O Diabo veste prada" apresenta um roteiro leve e engraçado, onde os especialistas do mundo fashion vivem uma relação de amor e ódio nos bastidores da revista. Para realizar essa tarefa, David Frankel ("Marley e eu") contou com um ótimo elenco que inclui Meryl Streep (indicada ao Oscar pelo papel) e Anne Hathaway (Amor e outras drogas, Alice) e Stanley Tucci (Burlesque) em atuações inspiradas.


Deixando de lado o glamour e a sofisticação das coleções de moda, o filme é altamente indicado para quem se interessa pelo universo corporativo por abordar conceitos que vão desde cultura organizacional à conduta e ética profissional.

O visual é outro elemento fundamental na trama. A cada cena, são utilizadas inúmeras referências a marcas conceituadas e estilistas famosos. O figurino do filme é assinado por Patricia Field. Seu trabalho foi tão elogiado que lhe rendeu um lugar entre os dez melhores figurinos da história cinema e uma indicação ao Oscar.

Baseado no livro de Lauren Weisberger, ex-assistente de Anna Wintour (editora da revista Vogue), o filme trabalha os conceitos de marca e personalidade com humor e inteligência, sendo uma obra divertida tanto para os entusiastas de moda quanto para os que nem sabem o que uma revista Vogue representa para esse mercado.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind)


A tarefa árdua de desvendar os mistérios da mente humana não é algo novo, ao menos no cinema. Desde os clássicos como “O Ano Passado em Marienbad” aos recentes “Onde vivem os monstros” e “A Origem”, a análise dos pensamentos, traumas, sonhos e lembranças é realizada de modo que cada espectador desenvolva a sua teoria a respeito do tema. Quem nunca imaginou o que se passa na cabeça do outro? E se fosse possível implantar ou arrancar uma idéia na mente desse indivíduo? É nesse jogo de (im)possibilidades que se encontra “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”.

Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formavam um casal que durante anos tentaram fazer com que o relacionamento entre ambos desse certo. Desiludida com o fracasso, Clementine decide esquecer Joel para sempre e, para tanto, aceita se submeter a um tratamento experimental, que retira de sua memória os momentos vividos com ele.

Após saber de sua atitude Joel entra em depressão, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo. Decidido a superar a questão, Joel também se submete ao tratamento experimental. Porém ele acaba desistindo de tentar esquecê-la e começa a encaixar Clementine em momentos de sua memória os quais ela não participa.


Olhando rapidamente, o filme teria todos os ingredientes para um resultado enfadonho. Uma comédia dramática com toques de ficção científica estrelada pelo espalhafatoso Jim Carrey e a eterna titânica Kate Winslet. Felizmente, o que vemos é uma obra prima, fruto de um roteiro bem estruturado e atuações espetaculares.

Para quem já estava acostumado a ver o Jim Carrey em personagens caricatos e a Kate Winslet em papéis mais contidos, o filme foi uma grata surpresa. Aqui, os trejeitos e caretas de Carrey dão lugar à sensibilidade de um homem que não quer mais sofrer por amar uma garota tão instável. Ao mesmo tempo, Winslet surpreende ao expor uma personagem rebelde e misteriosa, livre de qualquer compromisso sério na vida e no amor.


O filme, com direção de Michel Gondry, cineasta francês famoso por seus videoclipes com a cantora Björk, reúne um elenco estelar que ainda conta com Kristen Dunst e Mark Ruffalo (Minhas mães e meu pai). O roteiro do filme é assinado por Charlie Kaufman, também responsável pelos textos de “Adaptação”, “Confissões de uma mente perigosa” e “Quero ser John Malkovich”.

“Brilho Eterno de uma mente sem lembranças” traz um dos casais mais inusitados que o cinema poderia unir, mas não somente isso. As situações que o filme apresenta, assim como as memórias dos personagens, nos transportam para um submundo confuso e adorável que só a mente humana é capaz de ‘produzir’.

"Feliz é o destino do inocente,
Esquecido pelo mundo que ele esqueceu.
O Brilho eterno de uma mente sem lembranças"
(Alexander Pope)

Vovó... Zona 3: Tal pai, Tal filho (Big Mommas: Like Father, Like Son)


Desde o início da sua carreira no programa de TV "Star Search", Martin Lawrence é um ator que parece estar sempre “interpretando” ele mesmo . De “Bad Boys” a “Segurança Nacional”, Lawrence demonstra muita naturalidade ao expor a sua veia cômica mesmo que o seu personagem seja um agente em uma missão teoricamente perigosa e muito importante. Na franquia “Vovó... Zona” não é diferente.

A Vovó louca e gorducha conquistou o público que curte um cinema pipocão. Para uma sessão da tarde sem compromisso, “Vovó... Zona” faturou bastante, sendo que sua primeira versão arrecadou cerca de US$ 117,6 milhões somente nos EUA. Apostando nos resultados anteriores (e no carisma de Lawrence), o diretor John Whitesell traz novamente a história de Malcolm, um tira do FBI que tem a brilhante idéia de se disfarçar de uma senhora acima de qualquer suspeita para se infiltrar em alguns ambientes.

Dessa vez para cumprir sua missão, Malcolm obriga o seu enteado Trent (Brandon T. Jackson de “Percy Jackson”) a também se disfarçar de mulher. Os dois partem em busca de um pen drive com contém informações sigilosas que podem colocar um criminoso atrás das grades. Claro que esse pen drive está num local onde só a “Vovó Zona” pode entrar: numa escola de artes feminina.

Para se infiltrar no local, Malcolm, na pele de Vovozona, se oferece para trabalhar como inspetora, acompanhado de Trent, que se apresenta como sua sobrinha Charmaine. A partir daí, os dois se envolvem com os funcionários da escola e com as alunas para conseguir informações. A trama se divide entre a preocupação de Malcolm em encontrar o pen drive e o interesse de Trent nas garotas, sobretudo a bela Haley (Jessica Lucas).


A todo o momento, o filme tenta arrancar uma risadinha do espectador, apostando em piadas “requentadas” e baseadas em estereótipos como “orientais x ocidentais” ou “obesidade x anorexia”. Sem falar nas dancinhas e tombos que não podem faltar em uma produção que não tem mais com o que fazer piadas. Como já era de se esperar, a quantidade de clichês e o desgaste do personagem, foram o suficiente para o resultado fraco de “Vovó... Zona 3”.

Na tentativa de aproximar a comédia do público adolescente, o longa investe na música (principalmente Hip Hop) e em rostos bonitinhos e pouco conhecidos, mas em termos de comédia, "Vovó... Zona 3" não passa de um “mais do mesmo”. Uma sessão da tarde para quem gosta de “altas confusões do barulho com uma turminha que não brinca em serviço”.